O ano de 2024 trouxe desafios e aprendizados que marcaram minha jornada criativa com pigmentos naturais! Foi um período produtivo, mas não tão abundante quanto eu gostaria, como sempre rs. Afinal, a vida é imprevisível, e meu projeto de pigmentos naturais e aquarelas artesanais acabou cedendo espaço a outras prioridades que exigiam atenção! 😮💨
Esse é o dilema de muitos artistas e entusiastas de iniciativas criativas: equilibrar paixão e as demandas cotidianas nem sempre é uma tarefa simples!!
Inclusive, estou obviamente atrasado para a publicação deste artigo! Já estamos na segunda metade de 2025, e esse artigo era para ser um panorama dos meus testes e descobertas em 2024, marcando o início de 2025 !😅 Mas, antes tarde do que nunca, não é!
Aqui te convido a revisitar comigo essa trajetória e a sonhar juntos com as possibilidades que vêm pela frente no universo das cores artesanais! Foi um ano de exploração, transformando a natureza em cores e cores em arte, com muitas descobertas emocionantes pelo caminho (com frustrações também, que são parte do processo). Você vai descobrir aqui de onde tirei ideias para os processos (ou “receitas”) de cada teste que fiz, os resultados e frustrações.
Ao longo de 2024, consegui lindas aquarelas com sementes de Urucum, serragem de Pau Brasil, Açafrão em pó (o tempero de cozinha mesmo) e também a partir de flores de Flamboyant. Urucum e Pau Brasil eu segui de alguns livros antigos que descreviam os processos que os artistas utilizavam para fazer a extração. Mas precisei adaptar um pouco em alguns aspectos, devido a disponibilidade de insumos químicos específicos. Açafrão e Flamboyant eu fiz testes por conta. Mas atenção, não irei detalhar aqui o passo a passo de cada, pois seria muita coisa para esse artigo! Aqui é um panorama geral, os resultados obtidos e potenciais erros o processo de pesquisa e testes.
Pau Brasil e cochonilha são desafiadoras pois variam o resultado da cor muito facilmente, de acordo com pequeníssimas alterações nas concentrações dos compostos.
Pau Brasil
Pessoal, preciso dizer que pesquisei muito mesmo para tentar desvendar como criar pigmentos a partir do Pau Brasil, e apesar de alguns resultados interessantes, ainda preciso certamente testar e experimentar mais para melhorar os resultados!
Meu primeiro teste com qualquer material é o que eu chamo de “processo padrão”, que você pode ler aqui nesse outro artigo (e inclusive recomendo que leia, pois ali contém os fundamentos sobre extração de pigmentos). Nesses testes preliminares, tive resultados bem frustrantes em relação ao que já vi que é possível obter o Pau Brasil. As cores que eu conseguia não eram vibrantes, eram bemmm desbotadas e “xôxas”.

Então, pesquisei bastante e descobri diferentes processos de extração, com resultados diferentes em cada um deles. Também descobri que a brazilina, o químico responsável pela cor de fato do pigmento do Pau Brasil, é bastante sensível e altera a cor facilmente de acordo com a quantidade e tipo de químico utilizado para os ajustes de pH da solução em que o pigmento está sendo extraído.
Encontrei serragem de pau brasil (o pigmento é extraído da madeira) de origem sustentável (até onde fui informado, infelizmente não tenho como averiguar a fundo). Se quiser saber mais sobre o Pau Brasil, pode ler esse outro artigo do blog.
A ideia geral da extração é sempre utilizando uma extração aquosa, fervendo água com a serragem, permitindo a solubilização da brazilina. Agora, as variações incluem em adicionar outros químicos durante essa etapa, ou depois que isolar o liquido, e começar a precipitação com algum composto químico alcalino (eleva o pH), permitindo a formação de um complexo insolúvel, que precipita (o pigmento em si) e depois precisa se separado do líquido (esse processo de extração resulta no tipo de pigmento chamado “pigmento laca”).
Os resultados que obtive estão na ilustração abaixo, com cores variando de púrpura, vermelho e rosa claro, a depender do processo específico de extração.

PB01-A: “Pink Rose”; PB01-X: precipitado com solução de cobre; PB0-B: “Pink Rose“, com cremor tártaro e carbonato de cálcio; PB0-C: “Wood purple“, precipitado com carbonato de sódio; PB0-A: precipitado com carbonato de cálcio
Porém, temos outros problema após a etapa dos processos de extração, que é sobre a estabilização do pigmento e sua cor enquanto pó sólido, e também sua estabilidade na tinta. De todos os testes, tive dois mais interessantes (PB0-C e PB0-A), que mantiveram a cor estável no pigmento armazenado e na tinta, ainda que com certa redução da intensidade após pouco mais de um ano (no final do artigo a foto com todas as tintas que explico aqui no artigo, inclusive essas duas).
Urucum

Então, descobri um livro com a “receita” usada antigamente por alguns artistas. Precisei adaptar um pouco, pois as descrições eram em quantidades muito elevadas. Mas o fato principal é que era necessário fazer a extração inicial em uma base mais forte do habitual daquilo que chamo de “processo padrão” (lembrando, leia o artigo sobre isso aqui) dos meus testes iniciais.
O resultado da extração do urucum usando esse livro (The Handmaid to the Arts) como base me rendeu um pigmento laranja bastante vivo e vibrante, do qual fiz uma aquarela.
Tentar um pigmento laca do urucum direto com o “procedimento padrão” também não dilui tão bem. O pigmento dele, a bixina, solubiliza melhor em meio básico, então adicionei na água um pouco de carbonato de potássio ao invés de alume, permitindo a solubilização da bixina. Após isso, é adicionado o alume, que acidifica o meio, e criando a reação de precipitação da Norbixina, que possui essa coloração laranja vibrante.
Não acredito que ele tenha alta resistência à luz como características de pigmentos orgânicos naturais, mas ainda assim vale a experiência, e ele pode ser utilizado ainda assim para pinturas, desde que não fiquem expostas exibidas em parede, que corre o risco de desbotar (mas isso se aplica para qualquer material artístico comprado que não seja profissional de alta permanência), ou então com aplicação de verniz na pintura, para proteção.
Açafrão

Outro orgulho do ano de 2024 foi o resultado que obtive com o Açafrão, com base em testes preliminares que já havia feito em outros anos, e também a partir de muita leitura, e criatividade para experimentar!
Não encontrei nenhum processo passo a passo para extração precisa e isolamento do pigmento de açafrão. Então, a partir de pesquisas sobre a química da curcumina (o pigmento do açafrão), fiz alguns testes por conta própria mesmo. E, na verdade, o resultado que obtive eu ainda preciso ajustar melhor as proporções e passo a passo para, digamos, estabilizar melhor o processo de produzi-lo artesanalmente.
Mas, adianto que os testes com o “procedimento padrão” costumam ser frustrantes com o açafrão, porque a curcumina, que realmente dá a cor no açafrão, não é muito solúvel em água, portanto ele libera muito pouco no meio aquoso, mesmo esquentando.
O segredo aqui é que ele é bastante solúvel em álcool. Então, fiz uma solução com álcool ao invés de água. E depois de solubilizado o corante, então misturei com água e apliquei um pouco dos processos do “procedimento padrão” do pigmento laca, mas testei diferentes compostos químicos para ajudar na precipitação do pigmento.
Fazendo assim, consegui um amarelo extremamente vívido e intenso, um amarelo mais frio muito bonito, e muito diferente das cores que obtive anteriormente.
Ele parece muito promissor em termos de permanência, inclusive, tendo já bastante tempo que fiz a tinta e ela permanece vívida e intensa no papel após mais de um ano.
Cochonilha com Urucum
Também no livro “The Handmaid to the Arts”, encontrei um processo para uma extração mista do pigmento da cochonilha com o pigmento do urucum. Eu acredito que nessa extração conjunta, ocorra alguma reação química em que forme alguma substância específica, que liga os dois pigmentos em uma outra molécula, e não somente a precipitação de cada um de forma independente. Mas não consegui encontrar nenhuma referência de estudo químico sobre isso.
Esse é um livro de 1777, quando o mundo ainda passava pela Revolução industrial, então o livro é um apanhado de processos artesanais como eram feito pelos pintores e produtores de pigmentos da época.

Além do mais, eu precisei fazer uma adaptação. Eu não tenho acesso à cochonilha ou ela pulverizada, mas consegui um pouco de corante de cochonilha natural, um concentrado com extração à base de amônia (meio no qual o pigmento da cochonilha, o ácido carmínico, solubiliza melhor), além de outra adaptação para conseguir uma solução de nitrato de cálcio. Lembrando que não sou químico, não tenho acesso a certos compostos, e fiz algumas adaptações estudando um pouco da química envolvida, e do que tenho acesso como consumidor caseiro.
Basicamente, precisava de Ácido Nítrico para solubilizar carbonato de cálcio. Esse ácido não é um composto muito seguro para manipular, e nem acessível para comprar. Pelo que estudei, essa mistura resulta numa solução de nitrato de cálcio, algo que pode ser comprado em lojas de material para plantas. Então, adaptei alguns passos para utilizar isso.

Esse foi um procedimento com mais passos do que os outros, e mais delicado de fazer. Teve algumas soluções intermediárias (soluções corante: corante do urucum, corante da cocholinha, solução do nitrato, além do alume). Além disso, ao misturar o nitrato de cálcio com solução de alume, houve precipitação de um sólido branco (acredito que sulfato de cálcio), mas ainda assim usei a solução restante e serviu para precipitar o lindo vermelho que vemos nas fotos.

Se esse pigmento se mostrar estável na tinta, irei revisar esse processo para aprimorar melhor o passo a passo e as quantidades (para não precipitar esse sulfato de cálcio por exemplo 😅).
Com isso, consegui um vermelho interessante, completando um conjunto de cores quentes bem lindas e vibrantes
“Green Verditer”
Este pigmento não é exatamente natural. Está aqui porque foi um teste interessante e está na foto final junto com os outros.
Todos os outros pigmentos que trouxe até agora são pigmentos naturais orgânicos. Este é na verdade inorgânico e sintético. Feito em casa, mas sintético, e a partir de compostos químicos puros comprados em loja especializada.
Porém, existe uma versão natural desse composto químico, ou seja, que ocorre naturalmente. E é a Malachita! Sim, isso mesmo, o mineral esverdeada usado em joalharia. Ela é composta por carbonato de cobre, e ao ser pulverizada, produz esse belo pigmento verde, e assim era produzido por muito séculos, até por volta de 1800. O carbonato de cobre, em outra forma química, também produz naturalmente a Azurita, mineral azul que era utilizada no passado para criar o pigmento “blue verditer”.
Azul e Verde de flamboyant
Usei a flor de flamboyant (e também galhos) em diversos testes, que nem dá para relatar tudo aqui. Mas ocorre que quando iniciei meus testes de extração de pigemtnos anos atrás, eu havia conseguir uma cor verde musgo com flamboyant, mas não havia anotado e não recordava como fiz. Por isso, tentei regatar essa cor.
Nos diversos testes que fiz, consegui com as pétalas duas cores distinta, o azul flamboyant, e o verde flamboyant, o tom de verde musgo que eu havia conseguido anos atrás.
As flores de flamboyant solubilizam uma cor vermelha muito bonita na água. Porém não consegui um pigmento que capture esse vermelho. O verde musgo consegui com solução de cobre porém rendeu uma quantidade bastante pequena de pigmento. Acredito que seja estável, mas do ponto de vista químico não sei dizer o que é, pois descobri por conta nos meus testes, mas certamente algum complexo químico com o cobre ligado ao pigmento principal. Já o azul foi uma bateria de testes dentro de um fluxo de testes, e foi tanto passo que nem dá para descrever, mas usou mais ou menos as mesmas coisas que o verde, mas em ordens diferentes.
A tinta do pigmento azul não ficou com uma consistência legal, provavelmente por conter impurezas e/ou o pigmento ter ficado com partículas muito grandes. É outro teste para outro momento.
Segue abaixo os resultados em tintas desses pigmentos:

Da esquerda para a direita: Azul flamboant; Verde Flamboyant; Green Verditer; Amarelo açafrão; Laranja urucum; Vermelho Pau Brasil; Vermelho Uurcum-Cochonilha; Vermelho Pau Brasil II.
Quer mais detalhes, ou fazer perguntas pode comentar aqui, ou me procurar no Instagram! Lá eu posto alguns bastidores quando estou fazendo esses testes! (instagram: alexcamanho.arte).
0 comentários